Estávamos tirando a foto da turma para o convite da
formatura, e, quando o fotógrafo sugeriu que sorríssemos, surgiu uma sugestão
anônima no meio do grupo: “digam ‘DESEMPREGOOOO’!”. E foi assim que eu tive a
magnânima ideia de mostrar pra vocês que, quando você nasce com um dedo podre,
as suas escolhas erradas englobam tudo na sua vida, desde os óbvios
relacionamentos frustrados até a escolha da sua carreira.
Agora voltemos ao começo. Estudei no ensino médio em uma
escola particular particularmente muito ruim. Minha queridíssima tia me deu de
presente uma inscrição na FUVEST, e eu, confiante em mim mesma que sou, prestei
o vestibular “só pra ver como é”, já que acreditava que não passaria mesmo. Os
meses que envolvem essa história já renderiam um texto, mas vamos pular pra
parte em que eu passei na tããão disputada, cobiçada e - atualmente - polêmica
USP.
Tive de me esforçar muito sozinha pra conseguir aprender o
suficiente pra passar raspando. Estudei para a segunda fase história e
literatura, enquanto na prova de física só faltou eu ter uma crise de choro. Mas
passei, mesmo acertando 3/40 na prova de física (sobre isso:
não contem pra ninguém, ok?). Fiquei mais ou menos em 50° lugar, de 60 vagas.
Mas, foda-se: PASSEI!
Então eu comecei esse curso que – juro ‒
nem eu sabia do que se tratava. Você, por acaso, com 16 anos, saberia o que faz
uma pessoa que estuda “Tecnologia têxtil e da indumentária”? Pois é, eu também
não. Mas eu queria fazer roupas, expor minha moda, e achei que tinha tudo a
ver. Grande erro, o meu! No primeiro ano fui surpreendida por uma coisa
engraçada chamada Ciclo Básico: eu tinha aula com gente de vários cursos
diferentes, e as matérias iam de “Ciências da Natureza” até “Tratamento e
Análise de Dados/Informações” (sobre essa matéria: passei raspando). Todo estudante da USP Leste odeia o Ciclo Básico
por convenção, e, embora eu fosse uma exceção, devo admitir que ficar 1 ano do
seu curso tendo matérias de ensino médio de fato atrapalham MUITO sua evolução
acadêmica. Estágio no primeiro ano, nem pensar, né? Quem é que vai contratar em uma confecção um
newbie que só sabe fazer mapas conceituais ligando literatura com heliocentrismo?
Pois bem. Tudo acaba, e o primeiro ano acabou. Pra resumir,
o segundo e o terceiro anos foram “planos”. Embora a grade curricular do curso
tenha mudado incontáveis vezes, não vi nenhuma melhora no nível das matérias e
dos professores. Embora, por sorte, alguns professores das últimas levas
trouxeram grandes contribuições para o curso, a maioria do corpo docente nem fede
nem cheira. Um ou outro dita, os outros concordam. Assim, nada realmente muda:
o curso continua dentro da mesma caixa na qual esteve nos últimos 6 anos, desde que
surgiu. Daí decidiram mudar o nome do curso pra “Têxtil e Moda”, e, OPA!,
parece que agora dá pra entender do que se trata pelo nome. Batata: de um ano
pra outro o número de candidatos por vagas duplicou. Se você também é hype, com
certeza vai desejar estar neste curso da USP que tem “moda” no nome. Mas que
continua sendo um curso pra gente chata com cabelo estranho que tem paixão por calcular a
velocidade da produção
de um tear jacquard.
Quarto ano, e apenas uma palavra: decepção. Posso afirmar
para você que vi pessoas desistindo. No quarto ano. Nadar, nadar, nadar, e
morrer na praia? Sim, mas confesso que entendo essas pessoas. Junto da decepção
‒
a decepção de chegar nos finalmente sem realmente sentir que aprendeu algo útil
pra sua carreira ‒ vieram o desespero, o desgosto, a impaciência, a
vontade da matarDIGO, depressão. Chegar ao último ano foi quase como poder
respirar, mas também foi um momento legal pra taparem nossos narizes. As matérias
mais inúteis. Os professores mais egocêntricos. O maior nível de faltas. A menor
vontade de sair de casa pra chegar na faculdade e saber que não tem aula. No último
ano, além de ter desistido da homeopatia e da psicoterapia pra partir pros
ansiolíticos e antidepressivos, eu tive que aprender a não desistir: eu tinha
um TCC inteiro pela frente. Mas acredita se eu disser que esse foi dos menores
problemas? Por mais que tenha sofrido um bocado com a negligência de
professores e com a falta de material didático útil pra minha pesquisa, o TCC
foi bastante inspirador pra decidir o que eu quero pra minha carreira. Apesar
disso, eu não associo em nada essa minha decisão ao curso que fiz, no máximo 5%
de culpa ele levou nisso. Tive apenas uma matéria voltada para o design de
superfície, área de design que eu me apaixonei e escolhi pra mim. Isso não foi
nem de perto o suficiente para que eu conseguisse um emprego, muito menos na
área.
Os problemas que tive, entre matérias impossíveis de se
entender, colegas de sala que acham que são os vilões de 15 anos da Malhação, professores que acham que são reis da cocada preta e podem te tratar
como um inseto, vagas de emprego para as quais nunca fui chamada, propostas (irredutíveis) de trabalhos acadêmicos absurdos que valem a nota de um semestre envolvendo atores
pornôs transexuais, cobranças do mercado de trabalho que eu não podia suprir, semestres de aulas que não existiram, tempo desperdiçado
com coisas irrelevantes, dinheiro gasto com terapias... TUDO, a todo momento,
me forçava a parar. Mas não sei ainda se fui até o fim por persistência ou por
acreditar em algo que ainda não posso ver: meu diploma, extremamente imponente,
com as palavras Universidade de São Paulo nele impressas. Falta pouco, mas
ainda vou tê-lo em meus braços. E só aí vou saber se a escolha que eu fiz aos
16 anos foi tão podre quanto me pareceu nesses 4 anos, ou se eu estou
melhorando minha forma de fazer escolhas.
Saldo:
- Não sei costurar
- Não sei desenhar croquis
- Não sei fazer fichas técnicas
- Não sei usar programas importantes para a área de têxtil e
moda, tais como: Illustrator, Photoshop, Tex Design, Lectra, CAD (Corel aprendi
depois de gastar R$500 em um curso livre).
- Não tenho nenhum portfólio resultante dos “trabalhos
práticos”
- Não entendo nada de moda (pra não dizer "nada", entendo tanto quanto os meninos do Todo Dia Um Look)
- Não sou ryca, famosa, phyna e não ganho litros de dinheiro
fazendo roupinhas medíocres
- Mas já planejei uma coleção de roupas para 2 atores pornôs
(Allanah Star e Buck Angel, google it)
- Sei o que é uma maçaroqueira e posso dizer que uma malha
canelada é diferente de uma malha rib
- Fiz um TCC que rendeu 200 páginas e 57 estampas, mas que
ninguém nunca vai ver e achar relevante.
Bom gente, é isso aí! Tenho consulta no psiquiatra agora em
dezembro, Pretendo fechar esse ciclo da minha vida muuuito de boa na lagoa! (e
aos convidados da minha formatura: torçam pra que tudo dê certo e AHAZEM!!!)
 |
| Fica aí pra vocês um exerciciozinho do 3º ano, pra vocês invejarem meu glamour. |